Luciano Hang, o velho da Havan, foi um dos principais empresários em ativismo pelo Bolsonarismo. Luiza Trajano, criadora do Magazine Luiza, teve seu nome citado na imprensa como possível escolha de Lula para vice-presidente. Mas apesar de suas divergências políticas, ambos apoiaram a aprovação da chamada “taxa das blusinhas”.
A contradição de valores aqui é evidente tanto no liberalismo clássico de Hang, quanto do progressismo de Trajano. E pior: não são casos isolados. Diversos empresários brasileiros agem dessa maneira diariamente, ao ponto de nos fazer questionar se nossa elite realmente teria valores liberais.
Para responder a isso, terei ajuda do altamente renomado livro “Os Bestializados, Rio de Janeiro e a República que não foi”, de José Murilo de Carvalho. Com mais de 3500 citações acadêmicas, este livro utiliza a situação urbanística do Rio de Janeiro no início da República Velha para detalhar a relação entre elite e população, assim como o que eu considero a maior raíz das contradições do sistema brasileiro.
Porque tantos empresários defendem subsídios?
Em clássicos livros introdutórios de Ludwig Von Mises sobre liberalismo, como As Seis Lições ou A Mentalidade Anticapitalista, a história da classe média é contada como a ascensão política e econômica das massas durante a Revolução Industrial. E é a partir disso que surge a defesa de meritocracia e livre concorrência: como uma forma de derrotar a sociedade de castas de sua época e substituí-la por uma que tratasse a todos de maneira igualitária perante a lei.
Já aqui no Brasil, a situação foi diferente: a nossa classe média surgiu de funcionários públicos ligados às elites locais, e por isso não tinha esse mesmo consenso para criar uma sociedade de lei e ordem regida por uma burocracia impessoal. O que nossa classe média da época queria, sendo ela mesma parte da elite, era tornar o Brasil uma potência de primeiro mundo sem ter de passar por uma revolução que os tirasse do poder.
Com isso em mente, mesmo que muitas das elites da época tenham sido substituídas com o passar dos séculos, é possível entender como esse pensamento persiste até hoje: toda tentativa de mudança é obrigada a fazer inúmeras concessões até que o resultado final seja o mais inócuo possível. Basta lembrar da reforma da previdência, onde todos concordavam que ela era urgente e inadiável, mas cada setor fazia lobby para que eles ficassem de fora.
O resultado disso é o corporativismo, gerando uma distorção do sistema capitalista como um todo conhecida como Capitalismo de Compadrio.
Mercado ou Privilégio? Qual a Alma do Capitalismo?
O Capitalismo de Compadrio é um sistema econômico onde o sucesso dos negócios depende de relações e favores mútuos entre empresários e políticos ao invés do livre mercado e da livre concorrência.
Mas isso é igual em todo lugar do mundo, não? Não seria essa a essência do capitalismo?
Bem…não. Não é. Já se perguntou por exemplo por que, se bancos lucram tanto no Brasil, o HSBC foi embora? Por que um dos maiores bancos do mundo viria pra cá só pra pensar “isso aqui não vale a pena” e sair? Indo além: por que os principais bancos mundo afora não estabeleceram filiais por aqui para ter lucros bilionários?
É simples: cada um dos setores nacionais é respectivamente dominado por um número de empresas, que impede a concorrência de trazer inovações que melhorem a vida dos consumidores.
Basta lembrar do caso da Havan e da Magalu, que lutaram tanto para taxar a Shein pois elas mesmas já revendem roupas compradas da China mais caro. Como não lembrar também, por exemplo, de quando a Uber veio para o Brasil e enfrentou forte resistência do sindicato dos taxistas? Eu lembro bem da opinião do líder do sindicato.
“Pobre que mora nesses lugares [Grajaú, São Miguel Paulista] não quer carro na porta. Pobre tem que se conformar que ele é pobre. Ele não pode nem tomar um táxi, só toma quando a mulher vai dar à luz ou ele quebrou a perna. Aí ele chama por telefone ou pede para um vizinho dar uma ajuda. (…) O pobre não vai querer o que o rico tem.” – Natalício Bezerra, presidente do Sindicato dos Taxistas
Felizmente para nós, a Uber venceu todos os embates e se estabeleceu como meio de transporte mais barato e seguro, de modo que o pobre pudesse, sim, ter um carro lhe esperando na porta para situações corriqueiras. E, depois dela se estabelecer, concorrentes como a 99 surgiram para disputar esse novo campo. É em lutas assim, vividas todo dia pelo pequeno empresário, que o livre mercado defendido pelos liberais existe: o uso da produção em massa para satisfazer as necessidades das massas, fornecendo a elas produtos de qualidade a preços acessíveis.
A batalha entre capitalismo de livre mercado e corporativismo mundo afora é constante, com momentos onde o corporativismo controla tudo e momentos onde a inovação criativa gera um choque de capitalismo.
Aqui no Brasil, porém, o corporativismo é hegemônico há tanto tempo que vivemos um verdadeiro Estado de Bem-Estar Empresarial, onde o Estado intervém diretamente para que o empresário tenha lucro independentemente do que aconteça. Muitas pessoas de esquerda veem essa situação e, tomando a parte pelo todo, pensam que o corporativismo é o capitalismo. E que a defesa do liberalismo nada mais seria a defesa dos interesses dos ricos.
Ok. Então nossa elite não é liberal. Mas então ela seria o que então? Socialista? Afinal o que não falta é filho de rico pagando de revolucionário comunista nas universidades, certo?
Bem…também não. Tudo que vimos aqui é apenas um sintoma. Para entender a real face da elite brasileira, é preciso entendê-la em sua origem. Para nossa sorte, temos o livro do professor José Murilo de Carvalho para nos ajudar.
Entendendo a Elite Brasileira em sua Gênese
A República Velha foi proclamada por um motim de soldados com o apoio de grupos políticos da capital, ao som da Marselhesa. Não era, como nos mostra Carvalho, uma revolução nascida do desejo do povo por liberdade, mas sim, essencialmente, uma revolução de playboys.
“(…) chegados ao poder, do espírito da república guardavam no máximo alguma preocupação com o bem público, desde que o público, o povo, não participasse do processo de decisão. O Positivismo, ou certa leitura positivista da república, que enfatizava, de um lado, o progresso pela ciência e, de outro, o conceito de ditadura republicana, contribuia poderosamente para o reforço da postura tecnocrática e autoritária.” – CARVALHO, 2019, p.34
Ou seja, entende-se que a corrente vencedora na mente dos republicanos era o positivismo, a crença de que seriam os avanços da ciência (guiados por uma elite instruída) que nos levariam ao progresso, não à priorização e ascensão das camadas populares.
Não por acaso, o jornalista e político da época Aristides Lobo viria a dizer que o povo assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que estava acontecendo e achando que talvez fosse uma parada militar passando pela rua. Por mais que a proclamação tenha mais tarde ascendido em muitos a esperança de uma maior representação popular, Carvalho nos mostra que isso não foi o caso.
“Pode-se dizer que a República conseguiu quase literalmente eliminar o eleitor e, portanto, o direito da participação política através do voto.” – Carvalho, 2019, p.82
Mas note: tem um detalhe aqui que, se não prestar atenção, vai passar batido. Ouso dizer, inclusive, que é o detalhe mais importante de todos.
Pensa comigo: enquanto a elite alemã, por exemplo, influência o mundo por meio de sua indústria, música erudita, e filosofia; e a americana por meio do sucesso financeiro, cultura pop, e homogeneização política; o que a elite brasileira tem de seu?
Bem… Ela viaja pro exterior e entende tudo errado. É sério.
Enquanto as outras elites criam expressões premium de sua cultura nacional para difundir mundo afora, a elite brasileira rejeita a própria cultura e se expressa importando novas culturas para substituí-la.
Já se perguntou, por exemplo, o porquê da nossa alta sociedade viver viajando pro exterior? Férias em Paris, casas na Flórida, etc.? É pra viver lá os serviços, segurança, e qualidade de vida que não conseguem ter aqui. Passam tanto tempo lá, inclusive, que, ao voltar ao Brasil, se espantam com a precariedade daqui e tentam importar o desenvolvimento de lá para “nos tirar do atraso”.
Mas aí vem um pulo do gato: eles tentam emular no Brasil a civilização que estão vendo lá fora, mas sem passar pelo processo todo que levou àquilo. Isso significa que os novos conceitos são incorporados de maneira incompleta, misturando-se com os já existentes no Brasil e criando um amálgama. Nas palavras de Oswald de Andrade, uma antropofagia.
Não é por acaso que a esquerda brasileira mistura comunismo revolucionário com identitarismo woke, enquanto a direita brasileira mistura conservadorismo religioso com liberalismo Reaganista. E note como não há nenhuma contradição lógica aí, apenas o resultado da imposição de ideias mais recentes sem que as antigas tenham sido superadas. E quase sempre atrasadas em décadas, afinal nossa elite espera as ideias surgirem para copiá-las.
Só que a consequência disso é refletida de volta no povo, gerando, como nos mostra Carvalho, uma distorção perigosíssima no próprio contrato social brasileiro.
Contrato Social Às Avessas
O Contrato Social original foi pensado pelos ingleses como uma decisão consciente dos cidadãos para evitar a barbárie. Afinal, tanto pelo ponto de vista de Hobbes (ordem) quanto de Locke (liberdade), os seres humanos buscam primeiro os seus próprios interesses, e por isso precisariam de um acordo delimitando de antemão o que pode ou não ser feito por todos.
Já o contrato social brasileiro, como nos mostra Carvalho, é notoriamente uma imposição formal de cima a baixo por parte das elites, sem que elas próprias assumam o compromisso de seguir as regras que pregam para a população.
Havia a consciência clara de que o real se escondia sob o formal. Neste caso, os que se guiavam pelas aparências do formal estavam fora da realidade, eram ingênuos. Só podiam ser objeto de ironia e gozação. Perdia-se o humor apenas quando o governo buscava impor o formal, quando se procurava aplicar a lei literalmente. (…) O povo sabia que o formal não era sério. Não havia caminhos para a participação, a República não era para valer. Nessa perspectiva, o bestializado era quem levasse a política a sério, era o que se prestasse à manipulação. – Carvalho, 2019, p.150
A regra é clara: acreditar em regras no Brasil é coisa de otário. Afinal, o cidadão comum já aprendeu que as leis não foram feitas como um pacto social coletivo, mas sim como um instrumento de controle seletivo. Em outras palavras, apenas o cidadão comum está sujeito a penalidades legais, enquanto essas mesmas leis concedem benefícios aos mais privilegiados. Nesse ponto de vista, o brasileiro vê a sociedade como uma Gotham City onde todo mundo é o Coringa, incluindo o Batman. Não há lei justa. Só existem otários e malandros, e você tem que estar sempre alerta para não virar o otário.
Por isso que a nossa elite não é liberal, e muito menos socialista. Ela é ideologicamente antropofágica: um constante amálgama de valores estrangeiros importados de maneira incompleta, e regurgitados como algo novo para uma população que não a reconhece como legítima. Seus valores parecem contraditórios pois foram adotados superficialmente e incorporados de maneira incompleta.
Mas claro: eu não estou aqui dizendo que todos da elite se comportam assim. Henry Maksoud, por exemplo, era um liberal dos mais ferrenhos, e foi responsável por diversos avanços ideológicos do liberalismo no país. Exceções existem aos montes.
O ponto é que a elite brasileira deve ser, via de regra, primariamente entendida de maneira fisiológica: alheia à situação das classes populares, voltada exclusivamente para manter-se no poder, e atender seus interesses pessoais. Um grupo definido pelo seu corporativismo e seu desejo de preservação de privilégios; que se expressa emulando a forma de ideologias estrangeiras, porém sem se comprometer com elas em essência.
A partir disso, é possível entendermos que a defesa do liberalismo clássico e da livre concorrência significa também cultivar o surgimento de novas classes médias e elites ascendidas por meio do trabalho, gradualmente quebrando os velhos monopólios e privilégios corporativistas com um choque de capitalismo.

