Em um debate recente intitulado “20 liberais versus 1 desenvolvimentista”, o professor Elias Jabour (UFRJ) defendeu a tese de que o capitalismo é intrinsecamente centralizador e propenso à formação de monopólios, citando gigantes como JBS e Amazon. Segundo sua argumentação, o sistema privilegiaria detentores dos meios de produção através da exploração do trabalhador — que, por sua vez, tenderia a aceitar passivamente essa condição.
Diante de tal perspectiva, cabe questionar: essa crítica resiste aos fatos? Qual é, fundamentalmente, a dimensão histórica, social e ética do capitalismo?
Este artigo visa examinar a justificativa moral do que o filósofo Robert Nozick designou como a “era capitalista entre adultos que consentem”: um sistema de cooperação essencialmente marcado por interações voluntárias. Sob essa ótica, a defesa do capitalismo reflete o que Joseph Schumpeter denominou “destruição criativa”. O sistema premia o empreendedor, o cientista e o inovador. Embora rotulado como materialista por vertentes marxistas, o capitalismo, em sua essência, funciona como uma empresa cultural e humana.
Em sua obra A Revolução Implacável: Uma História do Capitalismo, a historiadora Joyce Appleby observa que, por ser um sistema cultural e não meramente econômico, o capitalismo não pode ser explicado apenas por fatores materiais. Trata-se de um conjunto de valores. Como demonstrado pelos estudos seminais de Elinor Ostrom e Vernon Smith em teoria dos jogos, o livre mercado depende de normas e regras que preservam a confiança e coíbem a corrupção. Longe de ser uma arena amoral de conflitos, o capitalismo opera sob um sistema de normas éticas rigorosas, frequentemente ignoradas por aqueles que desejam superá-lo em nome de uma igualdade abstrata.
Na verdade, o capitalismo genuíno sustenta-se na rejeição da ética do saque. O que muitas vezes se critica no Brasil — o clientelismo, a cleptocracia e o capitalismo de laços — é, na verdade, a negação do mercado. Nesses casos, a riqueza não provém da criação de valor, mas da cooptação do aparelho estatal. Historicamente, elites predatórias utilizaram o Estado para estabelecer monopólios e confiscar a produção alheia via tributação. É nesse cenário de privilégios estatais, e não no livre mercado, que a riqueza costuma ser fruto da exploração.
A história desmente a visão cética. Desde o século XIX, o capitalismo impulsionou avanços científicos que transformaram a dignidade humana. Isso se traduziu em maior expectativa de vida, democratização da educação e saúde e a erradicação de pragas que assolavam o Brasil, como a febre amarela. A inovação não foi apenas técnica, mas institucional.
Hoje, novos mercados financeiros e tecnologias, do Pix ao Bitcoin, conectam bilhões de decisões de investimento instantaneamente. Redes de comunicação encurtaram distâncias: se em 2010 o MSN e o Italki permitiam diálogos globais rudimentares, hoje a integração é total. A popularização do computador pessoal, impulsionada por figuras como Steve Jobs, é o exemplo perfeito de como uma ferramenta militar e estatal foi convertida em um artigo de consumo acessível, elevando o padrão de vida das massas.
Uma crítica comum no Brasil recai sobre a pauta de exportação, focada em commodities (soja, milho, minério), enquanto importamos produtos de alto valor agregado. Essa perspectiva, influenciada por conceitos leninistas, supõe que o valor só é gerado no chão da fábrica. Contudo, como observou o economista Michael Boskin, o valor é determinado pelo mercado, não pela categoria do produto. Gerar riqueza cultivando grãos ou montando aeronaves é, em ambos os casos, geração de valor.
As vantagens comparativas de David Ricardo mostram que a especialização é o motor do comércio. Não há desonra na riqueza gerada pelo campo ou pela indústria; o livre mercado é o mecanismo de descoberta desse valor. Em contraste, o protecionismo político sufoca a inovação para favorecer setores amigos do rei, impedindo a prosperidade real.
O capitalismo não é apenas a troca de mercadorias, prática que existe há milênios. É a mobilização da especialização em escala inédita para gerar riqueza para o homem comum. É a ruptura de sistemas de castas e privilégios em favor da descentralização do conhecimento. É a substituição da força pela persuasão; da inveja pelo esforço.
Imperadores do passado detinham poder absoluto e habitavam palácios luxuosos erguidos sobre o trabalho escravo, mas eram ‘pobres’ para os padrões modernos: não desfrutavam de antibióticos, saneamento básico, a descarga do vaso sanitário, eletricidade ou smartphone com WI-FI. O capitalismo, como revolução criativa e ética, não apenas gerou bens; ele tornou acessível a dignidade material em uma escala que nenhum sistema centralizado jamais foi capaz de replicar.

